21 março 2006

269) China: trabalhadores em falta e salarios em alta...

Para quem achava que as "leis" normais do capitalismo não valiam para a China, vale a pena ler esta matéria da revista Business Week, transcrita no jornal Valor Econômico desta terça-feira, 21 de março de 2006.
Constata-se que, como nas demais experiencias historicas conhecidas de capitalismo, a pressão no mercado de trabalho redunda sempre na elevação nominal, e real, dos salarios, e na elevação geral dos padroes de trabalho.
Ou seja, aquela historia de que a "oferta ilimitada de trabalho" iria marcar a China pelas próximas duas gerações tem seus limites estruturais, como sempre ocorre. Dentro em pouco, trabalhadores chineses se revelerão mais caro que em outros locais (Vietna, por exemplo) e mais adiante o capital será levado a se deslocar para regiões ainda insuficientemente tocadas pela sua "acao dissolvente", como queria Marx.
Paulo Roberto de Almeida

Trabalho
Empresas aumentam salários para conservar empregados, mas podem perder competitividade

China sofre com escassez de mão-de-obra
BusinessWeek
Jornal Valor Econômico, 21 de março de 2006.

Havia anos, o Yongjin Group obtinha um lucro razoável vendendo luminárias e móveis a varejistas como Wal-Mart, Home Depot, Target e Pottery Barn. Mas, recentemente, a companhia viu suas margens encolher para 5% - metade do que obtinha quando abriu sua fábrica em Dongguan, no sul da China, 14 anos atrás. Por quê? A escassez de mão-de-obra obriga a companhia a aumentar substancialmente os salários. No ano passado, os salários deram um salto de 40%, para, em média, US$ 160 por mês. A Yongjin, mesmo assim, não consegue encontrar trabalhadores em número suficiente.

Ali perto, na cidade de Suzhou, a Emerson Climate Technologies está se defrontando com dificuldades similares. A fabricante de compressores ar-condicionado viu a rotatividade de pessoal chegar a até 20% ao ano. David Warth, gerente-geral da Emerson, diz que aumentar os salários é tudo o que ele pode fazer para dissuadir seus 800 funcionários de se transferirem para Samsung, Siemens, Nokia ou outras multinacionais.

Espere um pouco. Não é verdade que a China tem um contingente inesgotável de mão-de-obra barata? Já não é mais assim. Das fábricas de têxteis e de brinquedos no sul do país às sedes de empresas e laboratórios de pesquisas em Pequim e Xangai, o principal problema hoje é encontrar e manter bons trabalhadores. A rotatividade em alguns setores de baixa tecnologia aproxima-se dos 50%. Guangdong diz ter 2,5 milhões de empregos não preenchidos, ao passo que as províncias de Jiangsu, Zhejiang e Shandong também reportam escassez de trabalhadores qualificados. "Antes, as pessoas falavam sobre a disponibilidade ilimitada de mão-de-obra na China", diz Zhang Juwei, da Academia Chinesa de Ciências Sociais, em Pequim. "Deveríamos rever esse conceito."

As notícias de escassez de mão-de-obra surgiram inicialmente no fim de 2004, mas as empresas acreditaram se tratar de um fenômeno temporário. Agora, um aumento de rotatividade e uma alta de custos salariais estão convencendo as multinacionais e seus fornecedores de que as regras do jogo na China mudaram para valer. Com o gradual estreitamento do desnível entre os salários na China e em outros países, a pressão no sentido de repassar os aumentos de custos para os consumidores nos EUA e em outros mercados começará a crescer. Como observou o Citigroup em relatório de fevereiro: "O crescimento contínuo dos custos trabalhistas na China, mesmo a um ritmo moderado, provavelmente produzirá um impacto inflacionário em nível mundial". Esses fatores terminarão por obrigar os chineses a modernizar toda sua base industrial para fabricar produtos que proporcionem margens mais amplas. E esses contracheques de maior valor estão criando uma classe de consumidores chineses que as multinacionais querem ter como clientela.

As companhias estão começando a reavaliar onde devem localizar suas instalações - se mais para o interior (onde os salários e o valor da terra são mais baixos) ou mesmo ainda mais longe, em países como Vietnã ou Indonésia. Os altos custos da mão-de-obra já começam a tornar proibitiva a operação de alguns fabricantes em cidades chinesas mais desenvolvidas, como Xangai e Suzhou. "Há um limite no qual as empresas dirão: chega, isto é muito caro", diz Michael Barbalas, gerente-geral da fábrica em Suzhou pertencente à Andrew Corp., de Illinois, que faz equipamentos para redes sem fio. Na fábrica, diz, os salários vêm subindo à taxa de 10% anualmente.

Esse é um processo lento, sem dúvida. As exportações da China para os EUA ainda não provocaram inflação nos EUA, pois o crescimento de produtividade na China compensa a alta salarial. Mas economistas dizem que esses ganhos de produtividade estão ficando mais raros e os fabricantes com margens mais estreitas, não demorarão a aumentar seus preços.

A pressão tem igualmente a ver com especialização e dimensão do contingente de mão-de-obra. Embora a força-de-trabalho total seja de aproximadamente 800 milhões de pessoas, relativamente poucos trabalhadores têm as qualificações desejadas pelos empregadores. "O contingente de mão-de-obra capacitada não atende as demandas de um mercado em rápido crescimento", diz C.P. Lee, diretor de recursos humanos da Motorola para a região do Pacífico asiático.

No ano passado, a rotatividade de pessoal em multinacionais na China foi, em média, de 14%, em comparação com 11,3% em 2004 e 8,3% em 2001. Os salários deram um salto de 8,4%, segundo a Hewitt Associates, consultora de recursos humanos. E um relatório publicado em janeiro pela Câmara Americana de Comércio na China detectou que a elevação nos custos trabalhistas reduziu as margens de 48% dos fabricantes americanos no continente. "A China corre o risco de perder sua vantagem competitiva", diz Teresa Woodland, uma das autoras do relatório.

Isso significa que os administradores de empresas já não podem simplesmente prover alojamentos para oito trabalhadores por quarto e esperar que eles trabalhem duro - 12 horas por dia, sete dias por semana. Quando He Maofang, 30, chegou a Dongguan, em 2000, por exemplo, "era difícil encontrar trabalho". Mas agora "há muita opção", diz He. Além de aumentar substancialmente os salários, a Yongjin melhorou seus dormitórios e a qualidade da comida no refeitório da companhia.

Muitas companhias estão compensando a escassez de mão-de-obra penetrando mais fundo no vasto interior da China, onde os salários podem chegar a 50% da média na costa. E a tendência não se limita à indústria de transformação. Apenas cerca de 10% dos candidatos chineses a empregos em setores críticos, como finanças, contabilidade e engenharia, são suficientemente qualificados para trabalhar numa companhia estrangeira, estima a firma de consultoria McKinsey. Embora a China tenha hoje menos de 5 mil administradores com capacitação técnica necessária para as multinacionais, acredita-se que outros 75 mil postos de trabalho para esse tipo de administradores serão criados nos próximos cinco anos.

Algumas companhias americanas acreditam que melhor ensino é o modo de se antecipar à escassez de técnicos. A Motorola contrata regularmente recém-formados os treina em sua "Universidade Motorola", em Pequim. A Intel investiu US$ 1,3 bilhão na produção de chips na China. E apoiou a formação de 600 mil professores no país.

Outras companhias estão fazendo tudo a seu alcance para conservar seus funcionários. A Emerson adotou horários de trabalho flexíveis em sua fábrica em Suzhou, para trabalhadores com filhos. Por outro lado, está cortando custos para garantir que os aumentos salariais não inviabilizem sua permanência em Suzhou. A empresa reduziu suas contas de eletricidade regulando o termostato em alguns graus acima, no verão, e abaixo, no inverno, e distribuiu ceroulas e camisetas de mangas compridas para aquecer os funcionários.

Também Pequim tem consciência de que precisa enfrentar o desafio, se quiser continuar no comando. Por isso o governo está afrouxando ainda mais as regras que proíbem habitantes rurais de mudar para cidades para trabalhar e está oferecendo isenções tributárias para incentivar os chineses no exterior a voltar ao país. O sistema de ensino superior também está sendo reestruturado para incluir mais aulas práticas e treinamento profissionalizante, numa tentativa de expandir em um terço a mão-de-obra especializada chinesa, para 8% da população. A China continuará sendo a oficina do mundo. Mas o mundo precisará se adaptar à alta inexorável dos salários da oficina. (Tradução de Sergio Blum)

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