28 janeiro 2006

195) Lições de um banqueiro central (agora de pijama...)


As lições da era Greenspan
Veja, 1º de fevereiro de 2006

Como presidente do Fed, o banco central americano, Alan Greenspan, durante dezoito
anos, ditou o ritmo da economia americana e mundial. Ele sai nesta terça-feira. Sua herança fica. Abaixo, algumas verdades econômicas que se firmaram nessas quase duas décadas.

É A PRODUTIVIDADE, ESTÚPIDO!
O crescimento do PIB tem impacto mais direto sobre a qualidade de vida das pessoas quando é impulsionado pelo aumento da produtividade. Uma economia dependente de uma monocultura concentradora de renda nas mãos do Estado, como é o caso da Venezuela com o petróleo, pode experimentar taxas altíssimas de crescimento nominal do PIB sem que isso se reflita na melhoria das condições de vida das pessoas. Um país que consiga aumentar sua produtividade em 5% ao ano dobra o padrão de vida da população em dez anos. Por quê? A razão é simples. A produtividade só aumenta com investimentos pesados em educação, tecnologia, desburocratização, diminuição do custo do Estado sobre os cidadãos e abertura econômica – todos fatores que direta ou indiretamente jogam para cima a qualidade de vida. Além disso, o aumento da produtividade permite à economia amortecer surtos inflacionários sem aumento correspondente da taxa de juro. Com alta produtividade, os exportadores de um país vencem quaisquer obstáculos e tornam-se menos vulneráveis às flutuações do câmbio.

A LIÇÃO PARA O BRASIL– Com 40% de carga fiscal, o Estado brasileiro pesa mais sobre os ombros de seus cidadãos que pagam impostos do que a máquina estatal de países comunistas como a China, onde esse valor mal chega a 20%. A carga fiscal brasileira joga metade da economia no limbo da informalidade, um porão onde a luz da produtividade não entra. Os setores da economia brasileira que melhores resultados apresentam hoje – principalmente o têxtil e o de bens de capital – são aqueles que se aproveitaram do dólar barato no período de câmbio fixo dos anos FHC para comprar equipamentos e máquinas de produção modernas e, assim, aumentar sua produtividade.


OS JUROS SÃO APENAS O FAROL, NÃO O CARRO
Talvez a grande arte de Greenspan tenha sido sua capacidade de "gerenciar expectativas". O que é isso? É dar aos agentes do mercado – empregadores e empregados, investidores e empreendedores, governantes e governados – a certeza de que não haverá surpresas impactantes na definição dos juros. Essa certeza vem da força moral e intelectual do presidente do banco central, mas também de sua inquestionável independência em relação a interesses políticos. Com essa atitude, os bancos centrais aumentam suas chances de amenizar os efeitos mais catastróficos das crises, de modo que nos episódios recessivos se consiga um "pouso suave" para a economia e nas ondas de crescimento se produza uma "decolagem suave." No primeiro caso, evita-se maior sofrimento para as pessoas, como a escassez e o desemprego. No segundo, a economia cresce sem levar consigo a inflação. Greenspan dizia que conseguir isso tudo tendo como instrumento apenas o poder de mexer na taxa de juro de curto prazo exige uma disciplina férrea, método e independência. A taxa de juro é apenas o farol que ilumina o caminho com menor ou maior intensidade. Os bancos centrais nada podem fazer pela produtividade, pela melhoria da logística das empresas, pelo aperfeiçoamento das leis trabalhistas e pela eficácia dos métodos de gestão privada – e tampouco podem obrigar os governos a cobrar impostos com menos fúria e ganância.

A LIÇÃO PARA O BRASIL – A indigência do pensamento esquerdista em economia no Brasil dá a impressão de que todo o enrosco nacional se deve aos juros reais praticados pelo Banco Central, que são os mais altos do mundo. Por essa visão bastaria baixar os juros para que a economia decolasse. Nada mais falso. Alguém por acaso imagina que efeito haveria sobre a economia do Haiti caso o governo da infeliz nação do Caribe baixasse a taxa de juro? Na visão deixada por Greenspan, a taxa de juro no Haiti é apenas um farol sem o resto do carro.

Os juros sempre têm de buscar a taxa de equilíbrio. A sabedoria dos bancos centrais está em saber qual é esse ponto. Um estudo do Fed mostra que no longo prazo – trinta anos – a taxa de juro de curto prazo tem poder efetivo sobre o controle da inflação mas nenhum sobre a taxa de crescimento. O que isso significa? Significa que manipular a política econômica para turbinar artificialmente a taxa de crescimento do PIB pode funcionar no curto prazo, mas logo virá uma correção recessiva – na maioria dos casos pela via inflacionária –, de modo que no longo prazo o crescimento obtido será o mesmo ou menor. O economista Claudio Haddad disse a mesma coisa em outras palavras: "No recente debate provocado pela queda do PIB diante das expectativas originais, tem se argumentado que a equipe econômica e o Banco Central deveriam doravante priorizar o crescimento, e não a inflação. Trata-se de um falso dilema. Não existe crescimento sustentável sem estabilidade, e para que ele aconteça é fundamental aprofundarmos o ajuste fiscal para que a estabilidade possa ser mantida a custos mais baixos para a sociedade".


É A ESTABILIDADE, ESTÚPIDO!
O economista Carlos Geraldo Langoni diz que o Fed se tornou o símbolo do banco central independente – uma raridade há trinta anos e hoje uma quase-unanimidade no mundo ocidental industrializado. Independente e com o mandato de conter a inflação, um banco central pode dar o ritmo estável à economia de um país propiciando aos agentes econômicos a bonança da "estabilidade gerencial". Um Prêmio Nobel foi dado ao americano Ronald Coase por ele ter provado que a estabilidade, a previsibilidade e o respeito a regras e contratos são o maior fator de corte de custos em uma empresa. As idéias de Coase estão começando a ser aplicadas a países. O melhor instrumento para diminuir os custos de transação em um país e entre países é a estabilidade de preços. A inflação média da era Greenspan nos Estados Unidos foi de 3%. A ação do Fed americano permitiu que a inflação se mantivesse estável mesmo sob o impacto dos déficits (de balança comercial e fiscal) e dos choques externos, como o aumento de 300% no preço do petróleo a partir de 2001.

A LIÇÃO PARA O BRASIL – O atual sistema de metas de inflação adotado pelo Banco Central brasileiro a partir de 1999 não é perfeito, mas tem a enorme vantagem de ser um compromisso formal com a estabilidade de preços. Os bancos centrais têm a mesma perplexidade dos mortais a respeito de como as economias funcionam e de quais são os limites das políticas econômicas sobre o mundo real. Eles apenas têm, em alguns casos, melhor e privilegiado acesso a informações e dados. Não são sábios. São sabidos. O sistema de recolhimento de dados do Fed americano é a mais extensa e capilarizada rede de informantes do país. Nenhum economista ou investidor tem acesso em tempo real aos dados antes que o Fed os analise. Por essa razão, para funcionarem bem os bancos centrais precisam ser vistos pelos agentes como donos de informações privilegiadas e de melhor qualidade do que qualquer um deles individualmente em um dia qualquer. É isso que garante a estabilidade. Mudar o sistema de metas apenas porque não é perfeito é uma temeridade. Nenhum sistema é perfeito. A grande qualidade deles é não serem mexidos a cada soluço recessivo ou inflacionário. O Fed americano tem um sistema de metas inflacionárias em que o limite máximo não é estipulado formalmente – mas todo mundo sabe que ele não pode passar de 3% em hipótese alguma e deve sempre estar girando em torno de 2%. Ben Bernanke, sucessor de Alan Greenspan, é um defensor de metas formais. Não será surpresa se ele as adotar no Fed.


A GLOBALIZAÇÃO BAIXA OS JUROS
Esse talvez seja o mais formidável fenômeno da era Greenspan. Os países que se abriram mais intensamente para o exterior foram os que menores juros tiveram e aqueles onde o estímulo monetário não degenerou em inflação. Por quê? A principal razão deriva do fato de que a abertura para o exterior acelera a competição e obriga as empresas a elevar drasticamente sua produtividade. Assim, elas conseguem fazer produtos cada vez melhores e mais baratos. Cada geração nova de um computador ou de um tocador de MP3 sai da linha de montagem com mais recursos e muitas vezes preços inferiores. Isso ocorre em escalas maiores, com automóveis, navios, aviões e máquinas industriais. Esse fenômeno segura a inflação. A liquidez em excesso pode ser direcionada para o mercado de ações ou para a construção civil. Quando há dinheiro demais, como no caso dos Estados Unidos, surgem as bolhas especulativas de preços. Elas são perigosas, sem dúvida. Mas, como nos EUA o preço desses chamados ativos não afeta a inflação, Greenspan se limitou a fazer alertas sobre a "exuberância irracional" dos mercados – e não permitiu que esses surtos levassem à subida exagerada dos juros.

A LIÇÃO PARA O BRASIL – A abertura para o exterior nos anos 90 foi a mais positiva guinada da economia brasileira em meio século. A soma das importações e exportações em proporção do PIB define o grau de abertura econômica de um país. Esse número está em 30% hoje. É uma mudança espetacular, embora tímida quando comparada ao que ocorre no Chile ou na China. A abertura pode trazer incômodos em períodos de escassez mundial de capitais. Nos tempos que correm, de excepcional liquidez internacional, a abertura é garantia de dólares abundantes e baratos – talvez a maneira menos dolorosa de segurar a inflação. Por acanhamento ideológico e apostas erradas do atual governo, o Brasil perdeu o bonde do excesso de liquidez no Primeiro Mundo. Saiu de terceiro maior destino de investimentos no governo FHC para a oitava posição no governo Lula. Uma pena, pois nada permite concluir que a liquidez mundial vá durar por muito mais tempo.

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