02 março 2006

247) Associação Brasileira de Relações Internacionais

Do site O Debatedouro, neste link: http://www.odebatedouro.com.br/forum/index.php?showtopic=1284
CONVERSAS: EITII SATO

Eitii Sato, professor do programa de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, é velho conhecido de alunos e profissionais da área, em Brasília e no Brasil. Na seção “Conversas” desta edição, dá-nos a satisfação de oferecer ao leitor os seus aportes para reflexão, em uma entrevista que viaja pelo universo das Relações Internacionais de hoje, mas que repousa essencialmente sobre o tema da recém-criada Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI) – cuja presidência é atualmente ocupada por Sato e a partir da qual, espera-se, teremos novos rumos para a comunidade brasileira de RI.


O DEBATEDOURO: Há muito a comunidade acadêmica de Relações Internacionais (RI) esperava por uma iniciativa de criação da Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI). A que o senhor credita a oportunidade de seu lançamento, em 2005? Enfim chegamos a um estágio de grande conveniência/consenso para a sua criação ou outros motivos levaram a que isso ocorresse?

EITII SATO: De fato, há muito que se esperava o surgimento de uma entidade que pudesse representar, de forma institucionalizada, a comunidade brasileira de estudiosos de relações internacionais. A principal razão para que a criação da ABRI ocorresse neste ano de 2005 é que nos últimos anos o estudo de relações internacionais no Brasil não apenas cresceu em interesse, mas também ampliou consideravelmente sua base institucional. Até meados da década de 1990, havia apenas uns poucos cursos de graduação e pós-graduação em relações internacionais e, em muitas universidades, a disciplina era ministrada apenas associada a linhas de pesquisa vinculadas a outros campos do conhecimento. Hoje, existe quase uma centena de cursos de graduação em relações internacionais espalhadas pelo país e, brevemente, haverá uma dezena de cursos de pós-graduação em nível de mestrado ou doutorado. É possível afirmar que, atualmente, todas as universidades brasileiras de reconhecida expressão possuem programas sistemáticos de ensino e pesquisa em relações internacionais, algumas em vias de sistematizá-los na forma de cursos regulares de graduação e pós-graduação. Essa realidade torna a criação de uma Associação que congregue os estudiosos da área um verdadeiro imperativo.


OD: Em algumas palavras, como o senhor definiria a missão da ABRI?

ES: A ABRI se constitui, tipicamente, numa sociedade científica e, como tal, tem como propósito fundamental promover a integração dos membros dessa comunidade (pesquisadores e instituições) e estimular o progresso do conhecimento na área.


OD: Qual é a agenda de trabalho da ABRI para o futuro próximo?

ES: Esses objetivos genéricos precisam ser transformados em ações e iniciativas concretas. No entanto, como toda sociedade científica, inevitavelmente, em seu início deverá ter suas atividades bastante voltadas para o processo de consolidação institucional, que significa tornar-se reconhecida como parte do universo mais geral da comunidade científica brasileira. Uma das primeiras ações deverá ser a de apresentar a Associação às instâncias nacionais e internacionais que, de algum modo, atuam na área. Pretende-se, por exemplo, participar formalmente nas atividades da ISA (International Studies Association) que congrega os pesquisadores mais destacados da área não apenas dos Estados Unidos, mas de outros países também e que agora estão dando sustentação à realização de um grande encontro internacional, a cada três anos. Por outro lado, no plano nacional, a idéia é desenvolver formas de colaboração com os programas de pós-graduação em relações internacionais estruturados de tal forma que ajude a fortalecer a cooperação institucional e as ações junto às instâncias oficiais do sistema nacional de pesquisa e pós-graduação.


OD: Como o senhor vê a comunidade brasileira de Relações Internacionais hoje? Há, no seu entendimento, alguma evolução recente mais notória?

ES: Entendo que a evolução mais notável é retratada pela própria criação da ABRI, que surgiu não como iniciativa de um pequeno grupo tentando se apropriar do potencial de um tema ou de uma área, mas muito mais como um movimento que surgiu e cresceu de forma natural dentro de uma comunidade que se tornou relevante e que passou a demandar maior grau de institucionalização para suas atividades.


OD: Como a ABRI incentivará a pesquisa e o estudo em RI no Brasil? De que instrumentos lançará mão?

ES: Certamente a ABRI não tem nenhuma pretensão de revolucionar os meios e os instrumentos de ação existentes na comunidade de pesquisa do país. Instituições como a CAPES/MEC e o CNPq deverão ter importância para a área de relações internacionais tanto quanto tem tido para as demais áreas do conhecimento. Todavia, também não se pode descartar a possibilidade de explorar formas de atuação e parcerias em que a área de relações internacionais apresente destacado potencial. Em especial o Ministério das Relações Exteriores estará entre as instituições com as quais a ABRI entende que deve desenvolver um programa de colaboração em bases sistemáticas, uma vez que é difícil pensar no estudo da política externa brasileira sem a cooperação dos órgãos do MRE. Obviamente, o MRE já mantém linhas de colaboração com várias universidades e centros de pesquisa em relações internacionais e a ABRI talvez possa contribuir para ampliar e facilitar essa cooperação, principalmente para as instituições situadas fora do eixo Rio-São Paulo-Brasília.


OD: A ABRI pretende dar conta, no seu dia-a-dia, de questões polêmicas como a integração de currículos nas diversas (e hoje distantes, do ponto de vista da uniformidade) regiões do Brasil e a do mercado de trabalho na área?

ES: Questões como essas, obviamente, acabarão sendo levadas a instâncias como a da ABRI. Em todos os campos do conhecimento ocorre fenômeno semelhante. Os encontros nacionais sempre se constituem em oportunidade privilegiada para se discutir as questões que preocupam o dia-a-dia do ensino e da pesquisa nas mais diferentes áreas e, com certeza, com a ABRI não deverá ser diferente. O aprimoramento dos currículos, os anseios profissionais e as dificuldades institucionais da área, com toda certeza, deverão fazer parte da agenda de discussões nos encontros da ABRI. Cabe, no entanto, esclarecer que em nenhuma oportunidade pude perceber entre aqueles que trabalharam para a criação da entidade o entendimento de que ela deva ter qualquer pretensão de se constituir numa espécie de "cartório" para chancelar o que deve e que não deve ser feito em matéria de ensino e pesquisa. A expectativa é a de que o advento da ABRI sirva para fortalecer no país o ensino e a reflexão em relações internacionais.


OD: Por fim, duas questões acerca do atual momento que vivemos, no Brasil e no mundo. Às portas do último ano de mandato do atual governo, como o senhor avalia a gestão Lula/Amorim nos últimos anos? O senhor arriscaria um palpite sobre o que poderemos esperar para o próximo ano? O mundo pós-11 de setembro sinaliza uma nova guinada estatocêntrica ou evidenciou a fraqueza peremptória do ator estatal?

ES: A política internacional é uma matéria muito fluida e, portanto, passível de equívocos. Ao longo da história, há inúmeros casos de avaliações equivocadas que geraram, em conseqüência, políticas equivocadas. Os eventos que precederam a Primeira Guerra Mundial mostram muitos exemplos de percepções equivocadas de estadistas notáveis. Os que apoiam a política externa do Governo Lula o fazem por entenderem que as percepções do Governo Lula acerca da política internacional estão corretas e aqueles que a criticam procuram enfatizar aspectos em que essas percepções estariam equivocadas. A grande dificuldade é que, na maioria das vezes, os frutos da política externa demoram para se tornarem efetivamente visíveis, ou, melhor, um balanço mais preciso exige tempo. Por exemplo, a aposta num assento permanente no Conselho de Segurança da ONU não pode ser avaliada apenas por ter sido ou não conseguido. Mesmo que tivesse sido conseguido, não é de todo claro que teria sido um bem. Seria preciso ter tido sucesso na empreitada e experimentar a condição de membro permanente para, depois de algum tempo, avaliar se o país - a sociedade brasileira como um todo - efetivamente ganhou com a condição ou se ela apenas viu acrescentados novos problemas e dificuldades aos já existentes. Mas esse é o dilema e a sina do governante. O estadista não pode tomar decisões apenas sobre certezas e unanimidades. A incerteza faz parte da natureza da política e do futuro e não foram poucos os casos na história de decisões políticas incompreendidas. Quanto a este ano de 2006, esperemos que seja um ano sem grandes turbulências na economia e na política internacional como foram, de certa forma, os últimos três anos para o Brasil.

Em relação ao papel do Estado no mundo pós-11 de setembro, apenas é possível dizer que a realidade vem confirmando a necessidade do Estado como princípio básico da ordem nacional e internacional. Em aspectos essenciais, é possível comparar o Estado à água corrente que temos em casa. Só percebemos a sua real importância quando nos falta. Breves interrupções no fornecimento da água encanada podem trazer algum transtorno, mas crises de abastecimento prolongadas podem, literalmente, virar nossas vidas de cabeça para baixo! O Estado forte não é aquele que nos importuna e se faz presente de forma incômoda em nosso cotidiano. O verdadeiro Estado forte é aquele cuja presença só percebemos quando, por alguma razão, ele se mostra ausente. Tal como no caso da água encanada, a ausência do Estado transtorna totalmente nossas vidas: os investimentos vão embora, o comércio declina e os empregos desaparecem porque com a ausência do Estado, a ordem desaparece. Essa é a tese (obviamante aqui exposta de modo muito simplificado) contida no último livro escrito por Mancur Olson (Power and Prosperity), no qual o autor procura explorar as razões que poderiam explicar por que algumas nações têm prosperado enquanto outras têm colecionado sucessivos fracassos. Sua resposta é que entre as possíveis razões estaria a incapacidade de algumas nações em construir Estados fortes, capazes de prover ordem e justiça com liberdade e estabilidade, isto é, cidadania. Entendo que, nesse particular, os eventos políticos que se desenrolaram após o 11 de setembro são mais circunstanciais do que estruturais. O papel do Estado continua tão importante quanto o era antes.

Este post foi editado por O Debatedouro em Monday, 20 Feb 2006, 17:26.

3 Comments:

Blogger ex-petista said...

paulo,
Estou aí na luta. Espero a ajuda de vocês pra botar esta gang fora do poder.

sexta-feira, março 03, 2006 2:16:00 PM  
Blogger Paulo R. de Almeida said...

Meu caro ex-petista,
Se você está empenhado em "tirar essa gang" do poder, como diz, por que não se apresenta claramente?
Fico grato pelo comentário no meu blog, mas o post em questão se referia apenas a uma entrevista com o professor Eiiti Sato sobre o ensino de relações internacionais no Brasil, e não tinha nada a ver, em princípio, com eleições ou partidos no poder.
Meu blog está precipuamente dedicado a questões de relações internacionais, com uma ou outra incursão em matéria de políticas públicas, mas procuro manter uma posição isenta quanto aos partidos no poder. Defendo a "ética na política", como muita gente, ou como muita gente defendia, mas prefiro não me manifestar partidariamente, inclusive porque não pertenço e não pretendo pertencer a nenhum partido.
EM todo caso, grato pelo comentário e volte sempre, neste e em meus outros blogs associados...

sexta-feira, março 03, 2006 3:36:00 PM  
Blogger Ricardo Rayol said...

Dr Paulo, se me permite um comentário dentro do humor cásutico que me é peculiar parece mais que essa ABRI é "Abri o cofre aí Lula".

sexta-feira, março 03, 2006 4:16:00 PM  

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